22.7.09

nova mensagem

2.11.08

Alvaiázere de outros tempos (40)

DOMINGO, 7 DE NOVEMBRO DE 1937


Trata-se da data de edição do nº 96 do jornal " O Alvaiazerense". O jornal estava no ano VII da sua edição.


Pela quantidade e diversidade de eventos nele tratados , merece que paremos um pouco e aqui se faça um ponto de situação.

Estávamos no Estado Novo em todo o seu esplendor. Consolidavam-se as reformas, nomeadamente a trazida pelo vigência do novo Código administrativo, com a eleição das juntas de freguesia, a Legião Portuguesa ia de vento em popa, continuava a doutrinação...


Na coluna ECOS, dava-se conta que o Dr. Ruy Álvaro de Castro Rosa deixou de ser comandante do Núcleo Concelhio, para ir ocupar as funções públicas de notário em Vila Nova de Cerveira, tendo sido substituído por Domingos Paiva Ribeiro, comandante de lança e "arreigado nacionalista e legionário cem por cento"


Assinala o mesmo artigo que " acabadas as férias a Legião voltou à sua natural actividade tanto mais que foram entregues ao Núcleo de Alvaiázere trinta e duas armas de guerra e respectivos sabres".


Concluía que dentro em breve seria distribuída nova remessa, já que o Núcleo, composto por duas Lanças, pois era considerado como um dos núcleos mais bem organizados do Distrito.

Entretanto, o Sr. António Henriques Ferreira e sua esposa D. Rosa Ribeiro Ferreira, ofereceram ao Delegado do Comando Distrital da L.P. Dr. António Freitas, uma bandeira destinada ao Terço de Alvaiázere.


Vem este número do jornal assinalar dois importantes melhoramentos para o concelho:



O primeiro, era a conclusão das obras de beneficiação e correcção da estrada que liga a Vila de Alvaiázere a Cabaços;


O segundo, referia-se à conclusão dos trabalhos de electrificação da vila e de Cabaços, que mais tarde viriam a ser inaugurados.


Foi também publicada uma pequena notícia ao fundo de uma página intitulada Novo Médico, que assim rezava:


" Fixou residência em Alvaiázere onde muito brevemente vai abrir o seu consultório, um novo médico, que há dois anos vem exercendo clínica na cidade de Coimbra. Ao nosso médico os nossos cumprimentos e o desejo das maiores prosperidades."


Somente isto Nem tão pouco o nome do clínico que certamente não pertenceria à União Nacional e tinha vindo afrontar os interesses instalados.


Era Alvaiázere no seu melhor!


Vale a pena agora, para ilustrar o espírito que se vivia, analisar o artigo abaixo publicado e que constava da publicação em análise.


Intitula-se o artigo Voluntários da Ordem e não é assinado.
Começa por afirmar que, se a Mocidade Portuguesa desempenha um papel forte na formação nacionalista das novas gerações, a Legião tem outro papel a desempenhar que se caracteriza sobretudo por uma acção de defesa e resistência directa aos ataques do inimigo vermelho.
Havia que reunir gente válida para a criação de um exército suplementar criando uma verdadeira falange anti-comunista, pois estava-se a ver bem perto ( Espanha) as consequências fatais das ambições de Moscovo.
E concluía assim:
" O desenvolvimento dos sentimentos nacionalistas mais íntegros, no sentido construtivo e profundo, que Salazar soube imprimir-lhes,; o aperfeiçoamento das qualidades ou virtudes básicas, indispensáveis a uma digna colaboração, tais como a obediência firme e incondicional à voz dos superiores, a par de uma disciplina que verdadeiramente possa chamar-se de ferro,- tudo isto deve estar presente a todo o momento na índole do legionário, avivando-lhe o entusiasmo e o amor pela causa que com tanta galhardia ele defende."
Em Alvaiázere vivia-se este espírito, com os legionários a serem armados, enquanto que em Espanha se estava a ferro e fogo, com Franco a tentar a todo o custo, com o auxílo de Hitler e Mussolini. invadir Madrid e tomar o poder.
Enquanto isto o Dr. Manuel Ribeiro Ferreia dirigia uma carta à Colónio de Alvaiazerenses em Lisboa, pedindo que não fosse organizado um almoço em sua homenagem em Lisboa.
Disso trataremos posteriormente.
E é anunciado que, a partir de 4 de Outubro de 1937, passou a existir diariamente uma Nova Carreira de Camionetasentre Cabaços e Coimbra da empresa Acácio J. Alves & Cª de Maçãs de D. Maria.
Era a célebre camioneta das 7 ( em Alvaiázere) e que regressava depois às 19 horas.

Era esta a vida que se vicvia numa pequena vila que agurdava a vinda da electricidade e da II Guerra Mundial...










































Alvaiázere de outros tempos (39)

AS ELEIÇÕES PARA AS
JUNTAS DE FREGUESIA
Apurados os resultados das eleições para as juntas de freguesia, ocorridas em 10 de Outubro de 1937, verificou-se que em algumas freguesias se verificou a participação de 90% dos eleitores, que votaram, evidentemente, na lista única apresentada pela União Nacional.
No Jornal de 7 de Novembro de 1937, constatou-se essa realidade, afirmando-se, por outro lado, que não houve qualquer oposição, demonstrando-se, assim,"que os adversários do Estado Novo, continuam do lado oposto, por teimosia ou apego a velhos ideais, sempre prontos a censurar..."
Enfim, uns infelizes que não eram capazes de ver e reconhecer os benefícios dos novos tempos...
Concluía o articulista que sec tratava da vitória do nacionalismo puro, era a guerra contra quaisquer ideias subversivas e destruidoras, era a oposição à perda da nossa independência "para a defesa da qual oferecemos o nosso sangue e e nossa vida..."
Os membros das Juntas de Freguesia tomaram posse nas respectivas sedes, de forma a que pudessem entrar em fuñções no dia 1 de Janeiro de 1938.
O Dr. Ant´nio de Freitas conferiu posse, a Manuel Simões Cardo, presidente da Junta de Alvaiázere.
Os restantes foram empossados pelos senhores Rafael de Freitas, Augusto Terixeira da Cunha, P.e Manuel Gonçalves Serra, Acácio Manso, Acúrcio Mendes e Manuel da Silva, em representação do Presidente da Câmara.

22.7.08

Raul Câncio dos Santos - IN MEMORIAM...


Depois de um concorrido funeral, onde estiveram presentes as forças vivas de Alvaiázere, que quiseram acompanhar um dilecto filho seu, até à sua campa, natural seria que “O Alvaiazerense”, como detentor de parte da memória desta terra, fizesse uma invocação merecida, aliás, da vida deste nosso conterrâneo.
Não o fez e perante tal lamentável realidade, entendo que o devo fazer, pois, com o desaparecimento do nosso “Senhor Raul” ou, para outros, do “Raul” simplesmente, partiu um pouco da história viva desta terra.
No meu caso, sem o mínimo de ideias transcendentais, sinto que partiu um pouco de mim, sinto que partiu um tempo que não posso deixar de recordar com muita saudade.

Pelas suas mãos passou a minha cabeça irrequieta, quando nos anos cinquenta me cortava o cabelo, na sua barbearia ao cimo da praça onde, nas férias grandes, se juntavam os irmãos Morais, “académicos ferrenhos”, que atacavam o seu benfiquismo genuíno com anedotas e dichotes coimbrões.

Pelas suas mãos passou o celulóide que, no novo Cine-Teatro José Mendes de Carvalho, me trouxe os filmes na minha juventude e os sonhos, a aventura e a beleza da vida desconhecida.
Ele era o velho Rato Mickey, ele era o Bug’s Bunny, ele era o Fernando Pessa ou o Pedro Moutinho a lerem as notícias do SNI, ele era a guerra na Coreia…
E o Senhor Raul, trazia tudo isso dentro daquelas caixas redondas de lata, que ia buscar na sua bicicleta, à camioneta, do Adelino Pereira Marques, que passava à uma e meia.

Depois, habituei-me a vê-lo como músico, tocando na Filarmónica, o que fez durante 70 anos.
E então foi também bombeiro, durante 30 anos, quando o quartel era ainda no centro da vila, a sirene rugia no cimo da torre da Igreja Matriz e o “Dodge” estava a um passo da barbearia.

Falar com ele, para mim, sempre foi um enorme prazer, pois ele era, de facto, a memória colectiva que desconhecíamos.
Melhor era, então, quando a fazíamos na sua adega, à volta do excelente branco, cuja sabedoria de o fazer, lhe foi passada pelo saudoso tio João Câncio, seu pai.

Finalmente e sempre, ficarei com esta enorme sensação de perda que só se tem com aqueles que são verdadeiramente importantes, que interiormente transportam uma riqueza milionária, digna da nossa eterna memória,

a memória de um amigo que se perdeu.

A. Marques Rosa

16.4.08

Novo Regresso

O tempo é bom para muitas coisas, mas por vezes é cruel e fugidio.
Circunstâncias várias fazem com que ele falte, com que seja até desperdiçado.
Torna-se contudo bom, qundo o conseguimos arrumar e utilizar em "coisas" de que gostamos.
Escrever neste blog é um desses casos e portanto, vou tentar arranjar algum tempo.
Mesmo abordado com toda a modéstia, Alvaiázere merece ser o tema principal deste amontoado de palavras a que se convencionou chamar de "blog".
Prometo andar por aqui-

21.4.07

Alvaiázere de outros tempos (38)

Propaganda

Pensei no título que deveria dar a este apontamento.
Encontrei esta palavra, para expressar a forma de intervenção do Jornal, num periodo em que a Espanha estava a ferro e fogo e que, internamente, se consolidava o regime e Salazar aparecia cada vez mais endeusado.

Em editoriais escritos no início de 1938, era bem patente o espírito que reinava entre os apoiantes do regime, de que o Jornal era um ruídoso arauto.
Intitulado “Ressurgimento”, editado em Fevereiro de 1938, o artigo de fundo então nele publicado, começando por fazer referência á forma elogiosa, como o representante diplomático de Inglaterra se tinha referido à obra em curso no Portugal de então, comparava o estado em que se encontrava o país dez anos antes, com o que se estava vivendo. E a diferença consistia em que Portugal tinha ganho credibilidade e respeito internacional.
Com as finanças públicas em ordem, havia paz e principalmente, havia estabilidade no governo.
Era um verdadeiro ressurgimento.
E esse devia-se a Salazar.
Era pura propaganda ao regime, especialmente quando publicada num jornal regional com as caraterísticas de “O Alvaiazerense”, que servia como transmissor dos valores mais puros do nacionalismo reinante.

Por outro lado, havia que transmitir valores mais específicos, para que se criasse um homem novo, um verdadeiro filho da revolução em curso.

Neste contexto, por exemplo, o Dr. Costa Leite, então ministro do Comércio e Presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, apontava no Jornal, esse homem como sendo o Legionário que tinha de ser um bom soldado, não só na forma como maneja as armas, mas, sobretudo, pelo seu espírito de disciplina e pela sua formação moral.
Os Serviços de Acção Social e Política da Legião Portuguesa, de que Costa Leite era Presidente, tinham como finalidade preparar moral e intelectualmente o Legionário, arrancando-lhe da alma os vícios contraidos noutros tempos.
E se era assim, seria porque a preparação militar, ainda que considerada necessária, não era suficiente, pois desejava-se que a Legião fosse uma indispensável escola há muito tempo ambicionada, para se cultivarem os verdadeiros valores morais e cívicos.

Essa educação moral, social e política, bem prenhe de valores cristãos, iria assegurar o prosseguimento firme e certo da obra prodigiosa de Salazar, no dizer do articulista.

A tudo isto associava o Jornal os artigos da “Campanha Anti-Comunista”.

Era a Revolução no seu melhor, reagindo deste modo à guerra civil que grassava aqui ao lado, em Espanha e que iria terminar meses mais tarde.

15.4.07

Alvaiázere de outros tempos (37)

Janeiro de 1938

Em jeito de crónica, referem-se os factos mais importantes que constaram no Jornal deste mês, para que possa existir uma mais perfeita noção dos tempos que se viviam.
Na Câmara Municipal teve lugar a primeira reunião do executivo, onde se procedeu à distribuição de pelouros, tendo a mesma sido realizada da seguinte forma:
Presidência – Serviços municipais, finanças, polícia e serviços municipalizados;
Vereador Acácio Manso – obras municipais, urbanização e fomento;
Vereador Comendador Cesário Neves – saúde pública, cultura e assistência.
As sessões ficaram marcadas para se realizar todas as quintas-feiras pelas 14 horas.

No dia 2 de Janeiro foi conferida posse pelo Governador Civil de Leiria, Dr. Mário de Vasconcelos, aos presidentes de Câmara do Distrito, que foram recentemente nomeados pelo governo.
Entretanto, o Dr. Ruy Álvaro de Castro Rosa, tomou posse como notário em Vila Nova de Cerveira.
Por iniciativa da Casa do Povo, abriu um posto escolar nocturno com aulas entre as 19 e 21 horas, sendo seu regente o professor José Maria Castelão.
O Instituto Nacional do Trabalho e Previdência – delegação de Leiria -, publicava um edital chamando a atenção para a obrigatoriedade de as empresas concederem férias aos seus trabalhadores.
Publicava-se também um edital em que, o Presidente da Câmara Municipal fazia saber que, de acordo com as novas disposições do Código Administrativo, os pobres e indigentes do concelho teriam que fazer o seu recenseamento paroquial, a fim de deste ser extraída certidão para provar, de futuro, essa condição.
E a Campanha Anti-Comunista, assim intitulada no jornal, continuava, denunciando o pacifismo defendido pelos soviéticos que mais não seria do que um isco para atrair os “ingénuos”, pois os “vermelhos” queriam era fazer a guerra-Era ver o caso da Espanha...
Com a presidência do Dr. António Campeão de Freitas, teve lugar uma animada festa escolar em Maçãs de Caminho.

Tudo isto foi noticiado no Jornal de 26 e Janeiro de 1938.