25.8.05

Alvaiázere de outros tempos...(13)

O Hospital de Alvaiázere:


Da sua Associação Fundadora, à Misericórdia
Foi em 1898 que um grupo de alvaiazerenses se reuniu à volta da ideia de criar um hospital em Alvaiázere.
Grupo heterogéneo, dele faziam parte, tanto figuras importantes da monarquia, como sejam o Dr. José Maria Lopes da Silveira e Castro, responsável pela restauração do Concelho e o Visconde de S. Pedro do Rego da Murta, como também republicanos activistas de que é exemplo Policarpo Marques Rosa, director do jornal “O Combate”.
Começou a ser erigido o edifício mas, por circunstâncias diversas, a construção foi interrompida, só vindo a ser retomada por volta de 1920, graças à iniciativa de António Henriques Ferreira, que fez eleger uma nova Comissão Administrativa.
Com o auxílio técnico do Eng. Francisco Lagoa, a edificação foi por diante, assim surgindo o edifício que, até há pouco tempo, antes da remodelação para o Lar de Idosos, existiu naquele local.
No dia 8 de Junho de 1928, foi inaugurado solenemente o Hospital Comemorativo de Alvaiázere, pelo Bispo de Coimbra.

Possuía duas enfermarias que receberam o nome de Stº António e de Nª Senhora de Fátima, equipadas respectivamente pela Srª D. Virgínia Peres e pela Srª D. Lucinda Graça, que tiveram direito a lápide no exterior do Hospital que, espera-se, tenham sido guardadas por quem remodelou posteriormente o edifício.

Em 17 de Setembro desse ano, realizou-se uma sessão de homenagem ao grande obreiro do hospital que foi António Henriques Ferreira, resultando dela a colocação no seu átrio de grande quadro a óleo com a sua imagem que, também, se espera, esteja convenientemente guardado ou, no mínimo, devolvido à família.

Entretanto, o jornal “O Século” iniciou uma campanha a nível nacional, no sentido de serem criadas misericórdias nas sedes dos concelhos de todo o País.
Em Janeiro de 1929, no seu nº 44, “O Alvaiazerense” vem reproduzir uma entrevista dada àquele jornal pelo Dr. Manuel Ribeiro Ferreira, em que não só adere à propaganda patriótica daquele jornal, tendente à organização das misericórdias, como sublinha a existência do Hospital, capaz de satisfazer os desejos o regime da Ditadura.
O entrevistado revela então que já abordou o assunto com o Director – Geral da Assistência, Dr. Luís Machado Pinto, que manifestou toda a simpatia pela ideia.
E em sub título publicava-se que “Alvaiázere, que já tem um Hospital, vai ter também a sua Misericórdia”.
De facto, em Março de 1929, no nº 46 de “ O Alvaiazerense”, é publicado o Projecto de Estatutos da Misericórdia de Alvaiázere, obedecendo na sua estrutura, ao Código das Misericórdias.
Diz o seu art. 1º que “ É criada na Vila de Alvaiázere, em substituição da Associação Fundadora do Hospital, que foi dissolvida nesta data, uma instituição de assistência, que se denominará MISERICÓRDIA DE ALVAIÁZERE – e que tem como fim principal socorrer os pobres residentes no concelho de Alvaiázere há mais de dois anos, impossibilitados de trabalhar temporária ou permanentemente, e manter melhor e administrar o Hospital Comemorativo, que ficará a denominar-se HOSPITAL DA MISERICÓRDIA.”.

No dia 23 de Maio de 1929 realizou-se uma assembleia dos sócios do Hospital, com a finalidade de eleger os corpos gerentes do Hospital e aprovar os estatutos da Misericórdia.
Ao contrário do que por vezes se ouve por aí, a Misericórdia de Alvaiázere, nasceu aqui e não de outros movimentos pios, porventura anteriormente existentes.
A Misericórdia, na sua forma jurídica, bastante acrescida patrimonialmente depois, com o testamento de José Mendes de Carvalho, nasceu aqui, e muitíssimo deve à pertinente acção e ao saber do jovem e brilhante advogado Dr. Manuel Ribeiro Ferreira

24.8.05

Alvaiázere de outros tempos...(12)

A eleição do General Carmona e a Liga 28 de Maio
Ocorreu no dia 25 de Março de 1928, não tinham ainda passado dois anos sobre a eclosão da Revolução.

Esta eleição foi um passo fundamental na construção do regime ditatorial, nascido com o MOVIMENTO DE 28 DE MAIO.
Contrariamente ao que sucedia na Primeira República, com excepção da eleição de Sidónio Pais, que teve o resultado que se conhece, desta vez a eleição foi diferente, sendo o Povo a eleger por sufrágio directo, o Presidente da República.
Anteriormente, era o Congresso que procedia à eleição, com todos os inconvenientes e “arranjismos” possíveis.

Numa pequena nota local, da edição n.º 34 de “ O Alvaiazerense”, era referido de uma forma expressiva que, “ É de presumir que se apresente como candidato à suprema magistratura do paíz o actual Chefe do Governo, senhor General Óscar Carmona. A sua eleição encontra-se assegurada em todo o paíz, conforme as impressões colhidas pelas visitas dos Ministros pelas diversas regiões. Não será também arriscado supor ao General Carmona, uma eleição condigna em todo o concelho de Alvaiázere, segundo o que nos foi informado pelas entidades competentes.”.

Provavelmente, no âmbito dessas visitas ministeriais, tinha estado em Leiria o Ministro do Interior que afirmou publicamente “considerar incompatível o administrar e fazer eleições. É verdadeira a afirmação e no caso de ser cumprida, não se dará o contrasenso de, em Ditadura, se realizarem eleições construção e fruto do constitucionalismo.”

Ganhava, assim, suporte o regime duro que proporcionou a acção “prima facie” de Salazar, e que, ao contrário do que afirmava o Ministro, desembocou na Constituição de 1933.

Voltando às eleições concelhias, com não podia deixar de ser, o General Carmona obteve uma estrondosa vitória, alcançando a seguinte votação, por freguesias:

Alvaiázere-491; Pussos-401; M. D. Maria-701; Almoster-314; M. Caminho-160; Pelmá-413; Rego da Murta-328

Segundo relato do jornal, foram “ queimados muitos foguetes e morteiros”.

Resultante dessa eleição, começa a ganhar cada vez mais forma a Liga 28 de Maio, movimento constituído à volta do General Carmona.

O Director do Jornal, era, na altura, o Dr. António Ribeiro Ferreira, já que, em Fevereiro de 1928, por alvará do governador Civil de Leiria, tinha sido nomeado Administrador do Concelho, o Dr. Manuel Ribeiro Ferreira (com apenas 21 anos!) iniciando, dessa forma, a sua carreira política fulgurante, terminada, mais tarde, por Salazar.

Foi na condição de director do jornal que entrevistou o Conde de Silves, Presidente da Comissão Organizadora da referida Liga, entrevista certamente ocorrida em Lisboa, onde tinha escritório de advogado.

Respigo da mesma questões, que considero lapidares:

1 – Estava constituída à volta do General Carmona “actual Presidente da República”.

2 – Cabiam todos os “amigos da situação e todos os portugueses que esperam e querem um Portugal melhor.”

3 – E dizia o Conde, de seguida, que “ somos contra todos os que querem a desunião de fileiras e somos favoráveis inteiramente àqueles que querem a união de todos os situacionistas. Com quem nada queremos e de quem somos intransigentes adversários é dos partidos políticos. Queremos o saneamento de alto a baixo de todos os serviços públicos, expurgando-os de tudo o que tiverem de mau, afastando desses serviços todos aqueles que, entranhados e possuídos dos velhos princípios, que se devem banir sem dó nem piedade, não deixam caminhar nem progredir, encravando com a sua resistência passiva, um rápido atingir dos fins a que nos propuzemos – a salvação da Pátria.”

O entrevistador terminou a entrevista afirmando: “Era o que o jornalista queria ouvir. Expor aos seus leitores os fins da Liga 28 de Maio…” (cfr nº 38)

O Presidente da Junta de Freguesia de Alvaiázere, Senhor Cassiano José Ferreira mandou por em arrematação, o fornecimento de pedra e mão-de-obra para a calçada em frente do edifício dos Paços do Concelho.

Começou a reparação da estrada que atravessa a vila e que estava em estado de completa ruína.

A Comissão Administrativa e a Administração do Concelho, a quem estava confiada a organização da Liga 28 de Maio, vem comunicar, através do jornal, que estavam a trabalhar nesse sentido.

23.8.05

Alvaiázere de outros tempos...(11)

A extinção do Concelho de Alvaiázere...

Costuma dizer-se que um mal nunca vem só, e foi num ambiente de grande preocupação, que começou a constar que o Governo da Ditadura, no seu ardor reformista, se propunha extinguir alguns concelhos, entre eles, o de Alvaiázere.
Por alturas de Outubro/Novembro de 1927, começaram a surgir essas notícias.
O alarido era muito e já todos estavam traumatizados com o que aconteceu com a comarca.
Foi assim que, no dia 16 de Novembro de 1927, ocorreu mais uma grande reunião na sala de Sessões da Câmara Municipal.
Reunida “ad hoc”, foi presidida pelo Eng. Francisco Adrião Lagoa , secretariado pelos senhores José Barata Ribeiro de Oliveira e Silva e Prof. José Maria Castelão.
O dr. Manuel Ribeiro Ferreira apresentou aos presentes uma “Representação” dirigida ao Ministro do Interior, que tinha sido elaborada por ele próprio, com a colaboração dos senhores Mário de Castro Rosa (chefe da Secretaria da Câmara Municipal) e do Sr. Miguel Oto, (chefe da Secção de Finanças).
Nesse documento, era feita uma interessante análise do movimento económico do Concelho e, bem assim, era elaborada uma caracterização geral, por forma a transmitir, inequívocamente, a razão da existência do Concelho.
Houve diversas intervenções de que se destacaram a efectuada pelo Dr, Acúrcio Lopes.
Elegeram então os presentes uma Comissão, composta pelos senhores Dr. Manuel Ribeiro Ferreira, Dr. Acúcio Lopes, Acácio Manso, José Rafael e Freitas, José Ribeiro de Carvalho, Cesário Neves, Pe. Manuel Gonçalves Serra, Juvêncio da Silveira e Castro, José Barata Oliveira e Silva, Mateus Pereira dos Reis, Francisco Vieira Sousa Rego e António Alves Pereira Brandão, sendo posteriormente integrada, em Lisboa, pelo Dr. António Ribeiro Ferreira.
Essa Comissão tinha com a finalidade de entregar a referida “Representaçâo” no Ministério.
A entrega da mesma foi efectuada na sala de reuniões do conselho de ministros, na pessoa do Chefe de Gabinete do Ministro do Interior, que logo descansou os presentes, afirmando não pensar o governo extinguir conselhos, estando somente nomeada uma comissão para estudar essa possibilidade.
Ora, o presidente dessa comissão era o Dr. José Marinho Simões, Secretário Geral do Ministério, a quem, de seguida, se dirigiram, e que lhes afirmou que “ se vierem a ser extintos alguns concelhos, não deverá entrar neste número o concelho de Alvaiázere”.
Todos estes factos são relatados na edição n.º 29, ocorrendo nela um insólito caso de censura interna.
O jornal foi para a tipografia com diversos artigos para compor e, entre eles, foi enviado um, da autoria de António Álvaro Nunes Sério, com o título de “Alérta!!!” que possivelmente se dirigia ao poder central palavras duras, quando o tom do jornal, depois, das reuniões ocorridas em Lisboa, já era nitidamente conciliatório.

E digo possivelmente, pois reparado no seu conteúdo, já depois do jornal impresso, nada mais restou fazer que não fosse imprimir uma tarja preta sobre o artigo, pois imprimir de novo o jornal corrigido, ficava muito mais caro.

Entretanto e paralelamente, foram investidos, no cargo de Presidente da Comissão Administrativa, o Conselheiro Dr. Simões Baião e no de Administrador do Concelho o Sr. Acácio José Ferreira, por nomeação do Governador Civil do Distrito.

11.8.05

Alvaiázere de outros tempos...(10)

A EXTINÇÃO DA COMARCA
Tendo os apontamentos anteriormente publicados, a finalidade de fazer uma breve caracterização do ambiente que se vivia em 1926, nas suas vertentes mais significativas, passo agora a mencionar os factos que me parecem importantes, para o conhecimento da evolução do Concelho e suas instituições, sempre baseado nas edições da época, do jornal “ O Alvaiazerense”.

E o primeiro é, sem dúvida, a extinção da Comarca de Alvaiázere, em Junho de 1927.
Resultante de um movimento de reorganização da justiça, que não iremos desenvolver aqui, o Governo da Ditadura, decidiu extinguir várias Comarcas (37) com baixa distribuição (entrada de processos), e Alvaiázere estava, pelo menos aparentemente, nessa situação.

Tal facto gerou um vigoroso movimento cívico, que logo o Jornal encabeçou, com a publicação de um Suplemento ao seu nº 21 (1ª Quinzena de Julho).

Aí, fazendo um veemente apelo à unidade de todos, critica ferozmente o Governo, chegando a afirmar que ele, “que tão audaciosamente agiu, fica, porém, perpetuamente amaldiçoado pelo povo do concelho de Alvaiázere”.

Afirmando de seguida que “ À guerra e ao ataque directo, vibrado no claro intuito de nos aniquilar, há que responder com as mesmas armas, usando dos processos que a provocação origina e aconselha” e atacando directamente “o ministro da... Justiça” por vir ferir o concelho na sua dignidade, lançando-lhe, em última análise, o insulto mais violento que seria possível dirigir-lhe.

Tinha razão o Jornal, porquanto, com a extinção da comarca, ficaria o concelho a pertencer à Comarca de Ansião, com todos os inconvenientes que isso trazia, pois, não esqueçamos que, por esta altura, ainda se discutiam os acessos de Alvaiázere àquela Vila.

Aliás. existia um relatório da autoria do Dr. Nunes da Silva, Juiz Inspector Judicial, que assegurava que "a Comarca de Ansião não tinha razão de existir".
Na perspectiva da rendibilidade, enquanto Ansião tinha custado ao erário público a quantia de 21.000$00, Alvaiázere tinha dado lucro de 3.000$00.

Simplesmente o Dr. Rosa Falcão que era de Avelar, era também chefe de gabinete do Ministro da Justiça...

No dia 10 de Julho, foi realizada uma reunião nos Paços do Concelho, convocada pelo seu Presidente da Comissão Administrativa, Sr. Acácio Manso, a que presidiu o Visconde do Rego da Murta, sendo secretariado pelo Sr. António Henriques Ferreira, reunião essa, muito participada, que encheu a sua sala.

Dessa reunião, resultou a eleição de uma Comissão composta pelos Sr.s António Henriques Ferreira, que a ela presidia, Acácio Manso, Mateus Pereira dos Reis, Henrique Delgado e Dr.s António e Manuel Ribeiro Ferreira.
Destinava-se a mesma, a contactar o gabinete do Ministro da Justiça, e a fazer contactos com outras comarcas extintas.

Foi de tal forma o movimento de repúdio, que a colónia de Luanda se organizou também e elaborou um extenso manifesto que foi publicado no Jornal.

Como acontece sempre em circunstâncias idênticas, a Comarca foi mesmo extinta e o Juiz Pires da Rocha, assim como parte dos funcionários judiciais, foram mesmo transferidos para Ansião.

A partir daquela data e por muitos anos, quem quisesse justiça tinha que se deslocar àquela vila. Em Alvaiázere passou a existir um Julgado de Paz.
Como o crime não podia ser julgado em Alvaiázere, contava-se que um queixoso correria graves riscos ao ir queixar-se a Ansião, pois sujeitava-se a ser ainda mais agredido no caminho...

As consequências, sendo desastrosas para o Concelho, ainda tiveram como efeito que, de imediato, tanto as freguesias de Maçãs de D. Maria, com as de Pussos e Rego da Murta, quiseram, ficar a pertencer às comarcas de Figueiró dos Vinhos e de Tomar, respectivamente.
Foi outra luta difícil, que os órgãos e a Administração do Concelho e as forças vivas tiveram que travar.

E como se não chegasse, começou a falar-se na extinção do próprio Concelho, assunto a que dedicaremos o próximo apontamento

10.8.05

Alvaiázere de outros tempos...(9)

OS EMIGRANTES
Fazer um apontamento sobre este tema, se por um lado é apaixonante pela riqueza humana que envolve, reveste-se, por outro, de alguma complexidade, dado ser difícil circunscrevê-lo a um curto período, sem que, numa terra de emigrantes, se possa ignorar os antecedentes do mesmo.
E mais notório isso se torna, quando estamos a tratar da emigração para África, sendo o termo aqui utilizado para definir todos os que, quantas vezes amarguradamente, tiveram que procurar meio de vida e eventual fortuna, fora da sua terra natal.

No período a que nos estamos a referir, 1926/28, dada a miséria endémica em que viviam os trabalhadores rurais e pequenos proprietários e até alguns artífices, o fenómeno da emigração era acentuado, tanto para África, como para o Brasil.

Num artigo de fundo assinado pelo director Manuel Ribeiro Ferreira (cfr. nº 15), vem o mesmo revoltar-se contra a saída maciça de famílias inteiras, que tanta falta faziam para o urgente desenvolvimento de Portugal Continental.
Era já o sentimento, mais tarde reinante no Estado Novo, que deu cobertura à institucionalização das célebres “ cartas de chamada”.

Esqueceu-se aqui o autor do artigo que, ele mesmo, era filho e sobrinho de gente, que também saiu da sua terra para conseguir fortuna e em boa hora o fez...

Em relação ao período que estamos a analisar, teremos que recuar ao último quartel do Século XIX, para constatar a emigração para África ou o Brasil, das agora figuras gradas que, salvo melhor informação eram:
Bernardino Correia, José Mendes de Carvalho, António José Ferreira, António Henriques Ferreira, Cesário Neves ( Brasil), Alípio José Ferreira, Acácio Bastos Ferreira, António Bastos Ferreira, Bernardino Francisco Marques.
Especialmente a actividade destes dois últimos, foi fundamental para que a geração seguinte, pudesse ter chegado a Angola com emprego assegurado, para começar vida.
Eram ambos sócios gerentes da importante empresa de comércio geral Gomes & Irmão, Lda, com sede em “ S. Paulo de Loanda “, que albergou atrás dos seus balcões a geração que se tornou rica após o fim da Segunda Guerra Mundial, especialmente por via da cultura e comércio do café.

Houve, no entanto, uma geração intermédia que se dedicou a diversos negócios, nomeadamente o das madeiras, de que referiremos, entre outros, Francisco Caetano da Silva, Artur Caetano da Silva, Joaquim Lopes Ferreira (mais tarde Director de “O Alvaiazerense”, Herculano Lopes Ferreira, Acácio Cunha, José Cunha, etc. .

O jornal começa a noticiar a existência e as actividades dessa colónia de alvaiazerenses a partir do seu nº 16 / Fev. 1927, dada a forte colaboração local de Acácio Bastos Ferreira que, tornando-se seu correspondente, angariou inúmeras assinaturas.
E dessa correspondência resulta, que é possível saber onde se encontravam os conterrâneos que vieram a fazer essas fortunas em finais dos anos 40.
Como noticia o Jornal, depois de terem trabalhado na firma Gomes & Irmão, estavam todos ainda a instalar-se nos Dembos, a cerca de 250 quilómetros de Luanda, com todas as dificuldades que se possam imaginar.

Curiosamente, com o deflagar da II Guerra, muitos tiveram que voltar aos balcões do antigo emprego em Luanda, pois a cultura do café conheceu uma enorme crise.

Depois da Guerra, foram as fortunas que se vieram a manifestar em Alvaiázere em finais dos anos 50, princípios dos anos 60, entre outros ( Ernesto Cirilo, Eurico Cirilo, José Dias Baptista, António Cirilo, Eugénio Franco, etc.).

Dos mais antigos do período tratado, é de realçar as figuras de Bernardino Correia, pelo efectivo poder económico espelhado não só na sua actividade bancária, como muito principalmente, na propriedade e direcção da Cª Colonial de Navegação, uma das maiores transportadoras para as Colónias.
É ainda de realçar Bernardino Gomes, fundador e principal sócio da firma Gomes & Irmão, Lda, que estendia os seus negócios pelas cidades de Juanda, Lobito e Lisboa, tendo sido, como já assinalámos, a porta de refúgio de muitos conterrâneos.

Nos anos que se seguiram e de diversas formas, vieram a contribuir decisivamente para o desenvolvimento da sua terra...

Alvaiázere de outros tempos...(8)

AS GRANDES OBRAS URBANAS

Como normalmente estas não aparecem de geração expontânea e são fruto, pelo menos, de sonhos e de muitos pequenos passos, que as vão aproximando da concretização.
As duas obras que vou referir, são bem o exemplo disso.

A primeira é o Novo Mercado dos Cabaços, que era uma aspiração e uma necessidade muito antigas.

Obra há muito aguardada, veio retirar a sua realização bissemanal, ao longo da rua principal.
O novo espaço, foi conseguido pela urbanização de terrenos pertencentes à casa agrícola da Senhora D. Virgínia Mendes Peres, que doou parte deles, e com o dinamismo na sua execução, do Senhor Ribeiro de Carvalho.

Foi uma obra importantíssima, dada o peso que o mercado tinha para o escoamento dos produtos locais, provindos da agricultura do concelho.

Com a realização de grandes festejos nos dias 10 e 11 de Outubro de 1926, foi inaugurada a praça onde passou a realizar-se o Novo Mercado.

Outra grande obra urbana, estava a germinar em Alvaiázere: O ADRO DA IGREJA.

Já atrás referimos que, ao lado da igreja existia uma estreita rua que ligava a rua principal, ao fundo, com a Rua da Fonte e Estrada dos Cabaços ao cimo.
Além do arranjo e alargamento dessa estrada, havia que criar um espaço que permitisse a realização do mercado mensal.
Por outro lado, a própria Igreja Paroquial estava também a precisar de obras.

O Jornal, consciente das aspirações de todos, lança uma campanha que vai ser decisiva para a sua concretização.
Começa por entrevistar o Senhor Cesário Neves, mais tarde Comendador, e dessa entrevista, além de ser feito um ponto de situação, irá resultar um movimento de recolha de fundos.

Deduz-se do teor daquela que, para o alargamento, seria necessário que os proprietários dos terrenos os cedessem, ou os mesmos teriam que ser expropriados. Pertenciam os mesmos a José Marques dos Santos e João Pedro Ferreira, sendo que, o primeiro já se dispunha, naquela altura, a ceder terreno e o segundo veio a negociar o seu, por volta de Fevereiro de 1927.

Como resultado final, a praça foi mesmo feita e resultou daí que, ainda hoje está balizada , ao cimo e ao fundo , por duas casas que foram construídas e que ainda existem, pertencendo, a de cima, a descendentes do Senhor João Pedro Ferreira.
Entre elas, foi construído um muro alto, hoje cortado pelo edifício das Finanças, cuja construção teve a colaboração de muita gente, sendo então mencionado que, por exemplo, o mestre de obras Senhor Afonso Rodrigues Balas, ofereceu oitos dias de pedreiros, em seu nome e de alguns amigos.

Encostada a este muro, foram construídos a Praça do Peixe, mais conhecida por Praça da Sardinha, por ser o peixe que lá mais se vendia, e dois talhos, sendo que o de cima ainda hoje é, numa feliz reconversão, o sede do jornal “ O Alvaiazerense”.

O Jornal passou a publicar a lista dos donativos, encabeçada pelo donativo de 3.000$00 de Cesário Neves, seguida de um donativo de 1.000$00 do Jornal e de outro tanto da Junta de Freguesia.

Paralelamente, foi aberta subscrição para as obras de reparação da Igreja Matriz, também necessitada, que atingiu elevados valores para a época, sendo mais uma vez encabeçada pelo donativo de Cesário Neves, também no valor de 3.000$00.

Todo o traçado urbanístico que resultou, em parte foi modificado pelo tempo, nem sempre para melhor.

E então aquela escadaria !!!

E a ignorância que retirou o nome da praça Comendador Cesário Neves, sem se aperceber de quanto era merecida, não só pelo dinheiro que o mesmo deu, como ainda pelo entusiasmo que pôs, juntamente com os jovens do Jornal, na sua construção !

Além de que, também resultou, a construção do emblemático Coreto, bastando ler a placa que se encontra no mesmo, para perceber o que se passou...

Este movimento, iniciou-se no Jornal em Janeiro de 1927.

4.8.05

Alvaiázere de outros tempos...(7)

O SONHO DOS CAMINHOS DE FERRO...
Muitas das pessoas interessadas por estes temas, decerto já ouviram falar na célebre linha de caminho de ferro, que deveria passar no Vale da Aveleira, vinda de Tomar, com destino a Miranda do Corvo.

Em Dezembro de 1926, num artigo assinado por Mário de Castro Rosa, vem o problema a ser equacionado, dentro do espírito de progresso que a todos parecia ter contaminado.

Referindo-se ao decreto publicado em 20 de Agosto de 1907, que estabeleceu o plano de caminhos de ferro a construir entre os rios Tejo e Mondego, vem assinalar a construção da via reduzida, que ligaria “Tomar, Maçãs de D. Maria, Avelar, Miranda do Corvo, Louzã, Arganil, Santa Ovaia e Ceia”.

Ora, logo o primeiro problema que assinala, é o mesmo ser de via reduzida, já que os troços existentes, tanto entre o Entroncamento e Tomar (que estava quase a ser concluído), como entre Miranda do Corvo e a Lousã, eram de via larga.

Assim sendo, chamava-se a atenção para a necessidade de compatibilizar a bitola das linhas, sugerindo-se que deveria ser a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro a construi-la e a explorá-la, até porque, assim, melhor poderia fazer o aproveitamento do seu material circulante, já utilizado nas linhas do Norte e do Oeste, de que era concessionária.

E concluía o articulista que, fosse como fosse, o que era preciso era construir a linha, pois caso contrário o concelho de Alvaiázere “estiola, definha e morre...” se não forem dados esses meios de transporte rápidos e baratos.

Até porque, assim, a exploração do ferro, prata e cobre que se acha disseminado pelo concelho, tornar-se-ia rendível.
E mesmo a madeira de pinho, que não se podia exportar, dado o custo do seu transporte, ficaria mais acessível.

Curiosamente, o pai do autor do artigo, Policarpo Marques Rosa, já cego e doente, vem, passadas duas edições, esclarecer pontos fundamentais, que se prendiam com problemas relacionados com os monopólios existentes, e que, portanto, o problema não era tão fácil de resolver, como à primeira vista parecia.

De facto, o contrato de concessão existente com a Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro, previa que numa zona de 40 quilómetros paralela á linha do Norte, não se poderia construir qual quer outra linha.
Também a Companhia da Beira Alta se opunha dado que afectaria o tráfego entre Gouveia e Pampilhosa.
O Ministro Brito Camacho, tentou impor à Cª Portuguesa dos Caminhos de Ferro a sua construção, mas o seu Conselho de Administração opôs-se.
Grande clamor fez a Companhia da Beira Alta e o Ministro acabou por atender nas reclamações.
Refira-se que. essas companhias. tinham sido por essa altura privatizadas, para grande gáudio de todos, pois eram um sorvedouro dos depauperados dinheiros públicos...

E, por estas razões ficou por construir o caminho de ferro, com que tanta gente ainda sonha, como bons sebastianistas que somos...



Alvaiázere de outros tempos...(6)

A questão das Vias de Comunicação (1926)
Tanto o estado das estradas, como as principais ligações do concelho com os seus vizinhos, estavam a precisar de urgente intervenção e ideias não faltavam...

Logo no n.º 1, o Jornal, vem insurgir-se contra o estado da rua principal da vila, que é “um simulacro de estrada, que mais parece, e é, um lodaçal imundo, onde dificilmente se pode passar”.
Da autoria de Mário de Castro Rosa, também nesse n.º é publicado um artigo, onde se pugna pelo acabamento da estrada de serviço, ligando numa extensão de 137,40 m. A rua principal, (E.D. 121), à estrada que ligava Alvaiázere aos Cabaços. Este processo arrastava-se desde 1913...

Era esta a estreita estrada que ligava o adro, passava ao lado da sacristia e acabava em cotovelo na estrada de cima, (Rua da Fonte) para Cabaços.
E tão importante era esse pequeno troço de estrada, que nela passavam as “carreiras” que ligavam Figueiró dos Vinhos, Alvaiázere, Tomar e Paialvo e a que ligava Cabaços a Caxarias, passando por Alvaiázere.
Além disso, ao cimo dela, realizava-se a feira mensal, que ocupava as ruas da Fonte, do Castelo, dos Banhos, da Piedade, o Largo da Piedade estendendo-se pela estrada dos Cabaços, a ponto de impossibilitar o trânsito.

Mais tarde, referiremos o que aconteceu e cuja solução, para já, adiantamos: Foi construída a Praça Comendador Cesário Neves e fez-se o arranjo do adro da Igreja Matriz.

Abordando agora o problema das estradas, dividia-se este em três aspectos fundamentais:
- A ligação Alvaiázere Tomar, via ponte do Pereiro;
- A Ligação a Caxarias, e
- A nova ligação a Pombal.

Se as primeiras duas estavam ligadas à decisão da Direcção de Obras de Leiria, esta última tinha uma forte componente de decisão e execução local.
Assim, o traçado das estrada que deveria ligar Alvaiázere a Ansião, e a ligação a Pombal, mereceu tratamento privilegiado do Jornal, que tentou ouvir a opinião de pessoas influentes.
Quanto a esta última, todos concordavam na sua grande importância, não só porque seria a via de escoamento dos finos azeites da terra, com a correspondente importação do pescado, dos adubos e do sal, nesta época feita pelos almocreves, como permitiria a exploração dos mármores e cantarias, de forma a que, de forma competitiva, pudessem ser colocados no mercado do litoral.

O traçado desta estrada tinha mais de uma versão, tendo sido avançada uma delas que, partindo do Couto, e daqui aproveitando um troço de 200 metros já construído, ia direito à Charneca, Pomares, Vendas, Fonte do Barrasco, Cavadas e Ansião.
Este traçado era o preferido pelos Senhores Mário de Castro Rosa e António Henriques Ferreira.

Em contraponto desta versão, existia uma outra que, partindo de Alvaiázere, passaria pelo Pé da Serra, Porta, Vendas, Fonte do Barrasco, Cavadas e Ansião e ainda outra que passaria pela Fonte do Freixo, Ramalhais, Porta, Vendas, Fonte do Barrasco, Cavadas e Ansião.
Evidente se tornava que a freguesia de Almoster ficaria somente servida até à Fonte do Barrasco, não atingindo a estrada o coração da mesma.

O Jornal ouviu então o Prior de Almoster, P. Manuel Gonçalves Serra que, em entrevista, começou por distinguir a estrada que liga Alvaiázere a Ansião.
Esta deveria seguir o traçado defendido atrás; mas a estrada que liga a Pombal, essa sim, deveria seguir o traçado da Marzugueira, Almoster, Pontes e Bemposta, a caminho de Abiúl. Duas estradas, portanto, com muita despesa e resultados duvidosos.
Contra estas soluções vem opor-se, Mário de Castro Rosa, em artigo publicado em Outubro de 1926, chamando a atenção para o facto de já estar estudada, desde 1905, uma estrada que atravessaria Almoster, em direcção ao sul da freguesia, passando depois pelo Bofinho, Mata, Boca da Mata e Alvaiázere.

Alguns anos mais tarde, a solução acabou por encontrar-se e, talvez não sendo a melhor, está hoje construída.
Venceu a solução Fonte do Freixo, Porta, Marzugueira e Almoster.
Foi o topógrafo dela Mário de Castro Rosa e o encarregado da Obra, Bernardino Marques Cabeleira.
Sobre toda a evolução, mais tarde, daremos a devida nota, assim como relataremos, de seguida, o sonho dos caminhos de ferro.

Repare-se que estamos no princípio de um novo período...