21.2.07

Memórias de meninice -O Ti Diogo

Chamavam-lhe o Diogo da Asseiceira.
Velho e rijo, forte e atarracado, casaco à banda sobre o ombro, mortalha do cigarro pendurada no lábio grosso.
Lá ia o Diogo para casa, enxada às costas depois da jornada de trabalho.
Vinha da loja do ti Chico Cocheiro, trazia sempre um copo a mais, às vezes vinha a praguejar.
E se lhe perguntavam o que tinha feito quando era mais novo, então contava que foi padeiro da Rainha D. Amélia.
Um dia veio a revolução. A rainha e os outros fugiram.
Ainda foi até à Ericeira, acompanhando a sua ama; mas não embarcou.
Não precisaram dele.
Ele sabia de padeiro. Tanto tendia a massa, como dançava em frente do forno.
Ao domingo, à hora da missa, passava o Ti Diogo mais a sua mulher, uma velha linda, muito limpa, toda vestida de chita garrida.
Ela ia para a missa, ele ficava pela taberna até ao fim do dia.
Repetindo histórias velhas como ele.
Dava vivas à monarquia e o Estado Novo pouco se importava!
É que ele era o Diogo da Asseiceira !

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