28.2.07

Alvaiázere de outros tempos (34)

No trilho da memória

Esta foto é do início dos anos 30.
O seu lado direito permanece praticamente intacto.
O seu lado esquerdo, contudo, já não existe.
O espaço então edificado, corresponde hoje à rua que desce ao lado do edifício da Caixa Geral de Depósitos.
Naquela época, no rés -do-chão, existia um estabelecimento comercial de tecidos, e por cima a Casa do Povo.

Mais tarde, o primeiro andar serviu para acolher os Bombeiros, sendo a sua primeira sede



27.2.07

Alvaiázere de outros tempos (33)

O Conselho Municipal

Este órgão, que tinha competência electiva face aos vereadores da câmara Municipal, era a expressão viva do estado corporativo, pois continha, nessa perspectiva, a representação das forças económicas e sociais do concelho.

As juntas de freguesia, nomearam em 13 de Novembro de 1937, os seus representantes em número de quatro, coincidindo essa nomeação com os nomes de quem nomeou, ou seja , os presidentes das juntas , nomearam-se a eles mesmos para representarem as suas juntas no conselho.

E assim composto o Conselho por:

Representantes das Juntas de Freguesia - Manuel Simões Cardo, comerciante, José Ribeiro dos Santos, proprietário, Joaquim Marques Simões, proprietário, António José Mendes de Oliveira, comerciante, Augusto Teixeira da Cunha, proprietário, contribuinte da contribuição predial rústica, P.e Manuel Gonçalves Serra, pároco de Almoster, representante da Misericórdia de Alvaiázere, José Barata Ribeiro de Oliveira e Silva, proprietário, contribuinte da contribuição predial rústica, António Maria Ferreira do Amaral Peres, proprietário, representante da Casa do Povo, António Silva, industrial e Aires da Silva, industrial, contribuintes da contribuição industrial.

Reuniram no dia 25 de Novembro de 1937 e, depois de verificados os poderes pelo Presidente da Câmara, que presidiu à reunião, procederam à eleição da vereação da câmara, já que, por força do Código Administrativo, o Presidente da Câmara era nomeado pelo Governo.

Como tudo fazia prever, a nomeação viria a recair sobre o Dr. António Maria Campeão de Freitas, que já desempenhava essas funções desde 1933.

Entretanto, as obras de electrificação do concelho continuavam a bom ritmo, tendo sido concedida autorização, por portaria, para que a Câmara Municipal contraísse um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos para fazer face às despesas tidas com as mesmas.

25.2.07

Alvaiázere de outros tempos (32)

Os novos Organismos Administrativos

A Câmara Municipal

Por via da reforma administrativa, que deu origem à entrada em vigor do novo Código Administrativo, aprovado Decreto-Lei nº 27.424, e publicado em 31 de Dezembro de 1936, entraram em funções a partir de 2 de Janeiro de 1937, diversas individualidades do Concelho, a saber:
Câmara Municipal - Presidente - (nomeado pelo Governo) António Campeão de Freitas, advogado e notário, que já vinha exercendo o cargo desde há 5 anos, “com manifesto agrado, aplauso e reconhecida utilidade para o concelho e para o Estado Novo“;
Vice-Presidente - Acácio Virgílio de Sousa Manso, proprietário, antigo presidente da Câmara e antigo Administrador do Concelho, após o 28 de Maio, “ que vem servindo desde há onze anos a causa da Ditadura de do Estado Novo, prestando à sua terra o concurso valioso das suas qualidades de trabalho e da sua nobreza de carácter”.
Vogais - Acácio Virgílio de Sousa Manso, já mencionado e Comendador Cesário Neves, “benemérito de Alvaiázere, realizador constante de iniciativas úteis e proveitosas, antigo vogal da Câmara com a Ditadura e o Estado Novo, actual Provedor da Misericórdia, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Casa do Povo, e Presidente da Direcção da Assembleia de Alvaiázere”.
Vogais substitutos - Augusto Teixeira da Cunha, proprietário, Vogal da Comissão Concelhia da União Nacional, e da Misericórdia, antigo escrivão de direito, que tem prestado à sua terra o concurso da sua inteligência e da sua experiência, bem servindo a causa pública, e Acácio da Silva Cunha Frazão, proprietário, antigo Administrador do Concelho com a Ditadura e antigo vogal da Câmara.

Refira-se que esta personalidades, com excepção do Presidente da Câmara, foram eleitas pelo Conselho Municipal a que nos referiremos em outro apontamento .

24.2.07

Alvaiázere de outros tempos

Curiosidades de finais de 1937

- A electrificação do concelho continua e já quase estão estabelecidas as redes de distribuição na Vila e em Cabaços.
- A estrada que liga a Vila a Cabaços encontra-se a ser arranjada, reclamando-se o seu alcatroamento.
- O comando do núcleo da Legião Portuguesa de Alvaiázere, deixou de pertencer ao Dr. Ruy Rosa que foi ocupar as importantes funções de Notário em Vila Nova de Cerveira, sendo substituido pelo aspirante a Comandante de Lança, Senhor Domingos de Paiva Ribeiro, que tinha como missão arranjar e alargar a sede, que ficou instalada na Escola Conde Ferreira.
Era composta por duas Lanças e já possuía 32 armas de guerra, sendo considerado um dos núcleos mais bem organizados do Distrito de Leiria.
- Entretanto, o terço de Alvaiázere da Legião Portuguesa, passou a ter bandeira.
Foi a mesma oferecida pelo senhor António Henriques Ferreira e esposa, recebendo-a o Delegado do Comando Distrital, dr. António Freitas.
- Foi criada uma secretaria notarial em Alvaiázere pelos notários Dr. António Freitas e Dr. Manuel Dias Freire, sendo nomeadao director o primeiro.

Alvaiázere de outros tempos (31)

A CONSOLIDAÇÃO LOCAL DO REGIME:
Eleição para a Junta de Freguesia de Alvaiázere

O número 95 do Jornal, datado de 26.09.37, trazia como tema de fundo a eleição para as juntas de freguesia do Concelho.
Produto da reforma do Código Administrativo, as juntas de freguesia passaram a estar sujeitas ao sufrágio popular, condicionado pelo regime e pela lista única.
A comissão concelhia da União Nacional, composta pelos senhores Rafael de Freitas, Acácio Manso, P.e Manuel Serra e Augusto Teixeira da Cunha, fez a proposta das listas.
O Jornal tinha como grande manchete, na primeira página, que a ocupava toda, as palavras VIVA O ESTADO NOVO - VIVA SALAZAR - VIVA O CONCELHO DE ALVAIÁZERE !
No seu interior, vinha como manifesto eletoral, um texto doutrinário do regime, sendo apresentados os candidatos que, para a freguesia de Alvaiázere, a única tratada no jornal, era constituída por:
Manuel Simões Cardo - Presidente; Joaquim Lopes Ferreira e António Quintino - Vogais.
A eleição ocorreu a 10 de Outubro.
Na edição do Jornal de 7 de Novembro, sob o título "As eleições das Juntas de Freguesia", é dada notícia da forma como correram as eleições, sendo feita referência a que as listas únicas venceram em algumas freguesias com mais de noventa por cento.
Referia-se o artigo que não houve qualquer oposição à lista apresentada pela União Nacional, concluindo que " A vitória das eleições das Juntas de Freguesia no concelho de Alvaiázere, é sem dúvida a vitória completa do nacionalismo puro, a guerra contra quaisquer outras ideias subversivas e destruidoras, a oposição à perda da nossa independência, para adefesa da qual oferecemos o nosso sangue e a nossa vida."
E assim se sintetizava o pensamento dominante.
Entraram em funções em 1 de Janeiro de 1938.
Foi dada posse à Junta de Freguesia de Alvaiázere pelo presidente da Cãmara Municipal e Administrador do Concelho Dr. António Freitas e às restantes, em representação deste, pelos senhores Rafael Freitas, Augusto Texeira da Cunha P.e Manuel Gonçalves Serra, Acácio Manso, acácio Mendes e Manuel Silva.

Alvaiázere de outros tempos (30)

A Escola da Loureira

Seis de Junho de 1937.
Foi festa na Loureira.
Inaugurou-se a nova escola, uma modelar escola ainda hoje existente e que tem a ela enexa a residência do professor, por forma a garantir que o mesmo fosse acolhido, ainda que a terra em si fosse pequena e sem grandes meios.
A sua base de sustentação económica consistia nos canteiros, célebres pela arte com que trabalhavam a pedra.
Era necessário educar e dar instrução às pessoas.
Isso viu o grande benemérito que foi José Mendes de Carvalho, natural da terra.
Para além da grande fortuna que deixou em testamento à Misericórdia de Alvaiázere, pela mão do seu advogado, dr. Manuel Ribeiro Ferreira, foi de sua iniciativa e a expensas suas que a escola foi construída.
A festa foi grande estando presentes todas as entidades locais.
Por tudo o que fez, foi-lhe conferido o colar da Ordem da Instrução Pública, que fez com que , no futuro, lhe chamassem de Comendador.
Todo o acontecimento foi reportado no "Diário da Manhã" o novo jornal do regime.

21.2.07

REGRESSO

Após várias tentativas parece que será desta vez que teremos algum tempo para continuar esta tarefa a que nos propuzemos,
No seguimento ao que temos escrito sobre o Estado Novo e sua implantação no Concelho de Alvaiázere, sempre se dirá que os próximos apntamentos serão "quentes" pois estamos na fase porventura mais dura do regime.
Vai-se falar do poder já metodicamene assumido e também da organização que o suportava, nomeadamente pelo enraizamento local - a Legião Portuguesa.
Serão estes os próximos capítulos e sempre se dirá que, nesta época, nem sequer há electricidade em Alvaiázere...
...

Memórias de meninice - A Ti Rosária

Vivia na estrada do Couto, na primeira curva da descida para a Vila.
Mulher baixa e seca.
Mulher Rija.
Ela era a carteira.
Todos os dias calcorreava a estrada que liga a vila a Maçãs de Caminho, Relvas e Carregal..
Levava o correio para as gentes que lá moravam e também fazia os recados que lhe pediam.
Com chuva ou com sol, usando por vezes a saia pela cabeça, a Ti Rosária era a figura certa, que ligava aqueles universos que hoje estão tão perto e que tão distantes ficavam.
Ela era a carteira.

Memórias de meninice -O Ti Diogo

Chamavam-lhe o Diogo da Asseiceira.
Velho e rijo, forte e atarracado, casaco à banda sobre o ombro, mortalha do cigarro pendurada no lábio grosso.
Lá ia o Diogo para casa, enxada às costas depois da jornada de trabalho.
Vinha da loja do ti Chico Cocheiro, trazia sempre um copo a mais, às vezes vinha a praguejar.
E se lhe perguntavam o que tinha feito quando era mais novo, então contava que foi padeiro da Rainha D. Amélia.
Um dia veio a revolução. A rainha e os outros fugiram.
Ainda foi até à Ericeira, acompanhando a sua ama; mas não embarcou.
Não precisaram dele.
Ele sabia de padeiro. Tanto tendia a massa, como dançava em frente do forno.
Ao domingo, à hora da missa, passava o Ti Diogo mais a sua mulher, uma velha linda, muito limpa, toda vestida de chita garrida.
Ela ia para a missa, ele ficava pela taberna até ao fim do dia.
Repetindo histórias velhas como ele.
Dava vivas à monarquia e o Estado Novo pouco se importava!
É que ele era o Diogo da Asseiceira !