22.7.08

Raul Câncio dos Santos - IN MEMORIAM...


Depois de um concorrido funeral, onde estiveram presentes as forças vivas de Alvaiázere, que quiseram acompanhar um dilecto filho seu, até à sua campa, natural seria que “O Alvaiazerense”, como detentor de parte da memória desta terra, fizesse uma invocação merecida, aliás, da vida deste nosso conterrâneo.
Não o fez e perante tal lamentável realidade, entendo que o devo fazer, pois, com o desaparecimento do nosso “Senhor Raul” ou, para outros, do “Raul” simplesmente, partiu um pouco da história viva desta terra.
No meu caso, sem o mínimo de ideias transcendentais, sinto que partiu um pouco de mim, sinto que partiu um tempo que não posso deixar de recordar com muita saudade.

Pelas suas mãos passou a minha cabeça irrequieta, quando nos anos cinquenta me cortava o cabelo, na sua barbearia ao cimo da praça onde, nas férias grandes, se juntavam os irmãos Morais, “académicos ferrenhos”, que atacavam o seu benfiquismo genuíno com anedotas e dichotes coimbrões.

Pelas suas mãos passou o celulóide que, no novo Cine-Teatro José Mendes de Carvalho, me trouxe os filmes na minha juventude e os sonhos, a aventura e a beleza da vida desconhecida.
Ele era o velho Rato Mickey, ele era o Bug’s Bunny, ele era o Fernando Pessa ou o Pedro Moutinho a lerem as notícias do SNI, ele era a guerra na Coreia…
E o Senhor Raul, trazia tudo isso dentro daquelas caixas redondas de lata, que ia buscar na sua bicicleta, à camioneta, do Adelino Pereira Marques, que passava à uma e meia.

Depois, habituei-me a vê-lo como músico, tocando na Filarmónica, o que fez durante 70 anos.
E então foi também bombeiro, durante 30 anos, quando o quartel era ainda no centro da vila, a sirene rugia no cimo da torre da Igreja Matriz e o “Dodge” estava a um passo da barbearia.

Falar com ele, para mim, sempre foi um enorme prazer, pois ele era, de facto, a memória colectiva que desconhecíamos.
Melhor era, então, quando a fazíamos na sua adega, à volta do excelente branco, cuja sabedoria de o fazer, lhe foi passada pelo saudoso tio João Câncio, seu pai.

Finalmente e sempre, ficarei com esta enorme sensação de perda que só se tem com aqueles que são verdadeiramente importantes, que interiormente transportam uma riqueza milionária, digna da nossa eterna memória,

a memória de um amigo que se perdeu.

A. Marques Rosa